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Bruna F. [userpic]

Azul

May 1st, 2009 (11:18 pm)

 

Há que se dar termo a cor do dia

embora considere amor

sua matiz quotidiana:

leve mas

 


fundo

(indecifrável leveza:

um passo em falso

e despenco

- sem peso)
 


Bruna F. [userpic]

Manoel de Barros

April 17th, 2009 (11:37 pm)
complacent

Humor:: complacent

V
Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

VI
No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.

VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.

Bruna F. [userpic]

Ana

April 4th, 2009 (08:16 pm)
awake

Humor:: awake

Ana teorizava sobre o amor enquanto procurava pelo seu, sem encontrar e todavida. Certo dia, pensando que, talvez, pudesse ser o simpático rapaz do moinho a trazer-lhe flores a janela, arranjou-se em seu melhor vestido e foi pass(e)ar por ele até que ele a notasse. Na primeira ela se distraiu, na segunda se envergonhou, na terceira desconversou e só então, ele convidou a entrar e tomar chá. "Vestido é tiro e queda" pensou, e do convite, achou cortês. Sentaram e falaram. Falaram sobre o campo, sobre o tempo, sobre o moinho, sobre eles mesmos e sobre os outros. Cansaram e calaram. Despediram-se sem reservas. Ela foi para casa e ele foi para dentro. Uma quarta-feira mais tarde recebeu num bilhete outro convite: Desta vez, nada de chá, girassóis! Ana desempoleirou-se e do armário tirou outro vestido, mais adequado as tardes de quarta-feira. Despediu-se da mãe com a desculpa de quem não tem e pôs-se a caminho. ( A outra Ana gostou da falta de jeito do menino). Encontraram-se na metade__ e ele estava cheirando a banho. No fim da tarde os girassóis ficavam maiores e mais vermelhos e depois, escureciam. Ela aceitou o namoro achando que o amor era mais, mas que o mais era porque crescia. Passou então a frequentar o moinho. Ele, que nunca achou nada do amor, gostava dos vestidos. E amava.

 

(Somente mais tarde é que ele diria que vestido vermelho só não vê quem não quer, sem medo de maiores retaliações).  

Bruna F. [userpic]

des-gosto

April 4th, 2009 (05:53 pm)
content

Humor:: content


pássara

pássa

ra
páss

!



 


Bruna F. [userpic]

Brevidade

April 4th, 2009 (04:38 pm)
accomplished

Humor:: accomplished

Almas tortas sinuosas

Dias permanescem
Dias vacuam
Espelham-se
Espelham-nos
                          [brancas]

Então enegrecemos e transparecemos
Ora densos
Ora pó
 

Bruna F. [userpic]

I - de um encontro, ainda adiado

December 8th, 2008 (03:52 pm)
artistic

Humor:: artistic


Pressentindo o equívoco inevitável, dispôs-se a reparar o erro. O caminho lento e rítmico doía-lhe as costas, ou talvez  fosse a distância. Pensou em escrever, como nos melhores romances, mas a ansiedade incomodava-lhe a torto e direito. Não tinha muita paciência embora assim a julgassem (graças aos seus traços sutis e porte elegante-curvilíneo). Era novembro, o vento soprava dispersando as nuvens - frio. O sol empalidecia em matizes amarelas e alaranjadas. Os contornos eram belos. Não sem entusiasmo pensara no encontro sob aquela luz, pensara no que diria e nas possíveis reações. Não sem agonia pensara em adiá-la ao máximo, e assim saborear cada segundo, sem maiores conseqüências. Não sem medo, pensara no não. Não sem recortes, pensara na volta, caso a fizesse sozinha. Uma mulher se contorcia dentro dela e do lado de fora, apenas suspirava. Não lhe negaria amor plenamente e não lhe negaria catarses. Manejaria, entre risos e dores, uma liberdade dupla e estariam enlaçados por este único vínculo afetivo e mutável, ao qual cuidariam como a uma semente e esta lhe agradeceria dando os frutos que lhe coubesse e nada mais. E fossem grandes fortes suculentos saudáveis duradouros ou fossem minguados secos ocos fracos e frágeis ao primeiro inverno, iria amá-los como ao homem, como a si e como a todo amor que conhecia. Entrou no primeiro trem para contar isso a ele. Para pedir que esperasse por ela, que entendesse, que compartilhasse e soubesse aproveitar tudo isso que lhe pertencia- e a ele apenas - sem destruir a parte que era dela-  e dela somente.

( Existem coisas no amor que só cabem guardar ao coração de uma mulher. Por fora, somos apenas pele. )   

Bruna F. [userpic]

Só pra constar

December 7th, 2008 (11:29 pm)
cheerful

Humor:: cheerful

 

Eu e a minha inércia. Nem mesmo quando as condições exigiam de mim uma mudança de postura, eu me preocupei em acordar quinze minutos mais cedo, ou me ocupar de coisas além-internet no fim-de-semana. E tanto se amontoou no meu dia, que quando me dei conta, não sobrava tempo para escrever, pensar ou ler quaisquer coisas - logo eu que me considero tão dedicada ao meus prazeres cotidianos. No entanto, eis as férias, para renovar em mim a esperança de ser uma pessoa melhor ou pelo menos mais organizada: Me dedicarei ao jornal. Lerei os livros que comprei e ainda não li. Verei os filmes que ainda não vi. Comprarei uma câmera nova em folha, praticarei. E manterei meus verbos no futuro do presente - para lembrar- me deste compromisso, como uma fita no dedo.

*Pensei também num novo blog, mas optei por criar um diário de bordo. Envio notícias dele por aqui, tentando versos que sejam meus- como nos velhos tempos. Me desejem sorte.  

  

Bruna F. [userpic]

Aí pelas Três da Tarde

October 15th, 2008 (04:38 pm)


Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances.  Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.


Texto extraído do livro "
Menina a caminho", Raduan Nassar, Companhia das Letras - São Paulo, 1997. pág.71.


Bruna F. [userpic]

Bonecas russas,lição de teatro

September 23rd, 2008 (05:52 pm)
content

Humor:: content

Nuno Ramos (continuação )

Vale a pena lembrar uma estranha teoria da expressividade, que teve seus dias de glória no final dos anos cinquenta, em São Paulo. Ancona Lopes, o famoso diretor do Cambuci, bairro próximo ao centro de São Paulo, oferecia aos seus alunos, depois da aula, um princípio de arte de representar que resumia esta teoria à perfeição. Olho no Olho, ministrava esta lição, para ele a mais importante de todas, com muita solenidade, num tête-a-tête que acabava praticando, quase sempre, depois da aula, bebendo junto com seus alunos. Não se mova, dizia ele, a voz bem grave, e demore. Demore muito. Isto é o mais importante. Trate o público como uma parede branca, como um animal de rabo, como um móvel antigo, como um carro quebrado. O público não merece o sentimento do ator. Lembre-se disso. Guarde o sentimento inteiro para você - esconda minuciosamente o quanto puder. E tome todo o tempo de que precisa. Principalmente isto. Tome todo o tempo de que precisa.

 Mas o professor Ancona queria bem mais que ensinar teatro. Apaixonava-se loucamente pelos alunos, contrariando tudo o que ensinava. Uma vez, acabou indo pra cama com um menino de treze anos. Os pais conseguiram colocá-lo na cadeia, onde, por falta de diploma universitário, acabou entre os presos comuns. Ao dizer para eles que ensinava teatro eque teatro para ele era imobilidade, os presos acharam muita graça e maltrataram o professor de todas as formas, para saber até que ponto ele agüentaria ficar imóvel. Mas ao primeiro tabefe, chorando e gritando muito, fez tanto estardalhaço repetindo não é isso, não é isso, que os presos se irritaram, amordaçando-o. Quando finalmene saiu da cadeia, muito machucado, desinteressou-se pelas lições e passou a praticar seu teatro sozinho, em casa.

Marcando as horas da tarde pelo trajeto da luz na parede do seu quarto, pronunciava uma única palavra a cada 60 centímetros do movimento do sol. Por exemplo: RRRRRRRRRRRRRRRRReeeeeeeeeeeeeeeeee
ssssssssssssssssssssssssssspppppppppppppppppppppppppppeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
ttttttttttttttttttttttttáááááááááááááááááááááááávvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvveeeeeeeeeeeeeeeeeeeeellllllllllllllllllllllll
llllllllllllllllllllll (60centímetros),pppppppppppppppppppppppppppppppppuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu
bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiicccccccccccccccccc
ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo (outros 60 centímetros), até formar a seguinte frase, ao cabo de 13 tardes, quando foi encontrado, desnutrido e sujo, pelo filho de seu vizinho (o texto estava colado à porta do armário para que não esquecesse): Respeitável público. Boa noite. Para que estamos aqui? Para acreditar. Eu me chamo Ancona Lopes. Acredito em vocês. Sei que detrás de tijolos há ouvidos, e detrás dos ouvidos há alguém. No hospital, o professor Ancona manteve seu método de alongar as palavras por horas, dias e semanas, de forma que ninguém entendia o que falava, se é que falava alguma coisa.

 Acabaram por interná-lo numa instituição psiquiátrica, com tratamento à base de duchas frias e lítio. Sem que ninguém percebesse, o professor continuava praticando seu teatro, pequenas peças de poucas frases, que, no entanto, duravam semanas. Procurou encontrar atores entre os colegas internos, para aumentar o número de personagens, mas ninguém conseguia acompanhar o seu método de dicção e pronúncia, nem a duração de suas frases, nem a sua maneira de ver a relação entre ator e público. Continuou, assim, com seus monólogos (embora tenha escrito diálogos e mesmo peças para três e quatro personagens), cuja extensão ninguém sabia quando começava ou terminava, já que o chocalho de suas vogais ou consoantes saía agora incessantemente de seus lábios feridos. A sobrevivências destes pequenos textos, hoje célebres, se deve unicamente aos cuidados do mesmo aluno que o levou à cadeia, mas que, ao longo de tantos anos de internamento, nunca deixou de visitá-lo. Aqui vão três exemplos:

1)- “Tarde”

Ele pousou as mãos nas costas e caminhou por duas horas. Cansou e adormeceu. Olhou para fora e viu que o dia terminava. “Como o tempo passou rápido!”, murmurou consigo.
 
(Tempo estimado - 7 semanas e três dias, com três atos de duas horas a cada dia. Um único ator deve recitar o texto inteiro, mas a frase Como o tempo passou rápido! (uma semana e dois dias) deve ser recitava simultanêamente por um coro de sete atores).
 
 
2)- “Quando foi?”
 
Meu gato morreu.
 
(Tempo estimado – uma semana e dois dias, com dois atos de uma hora e meia a cada dia. O ator, um homem de meia idade, deve dizer o texto de costas para o público, as mãos cruzadas para trás.)
 
3)- “Quem é”

Personagem feminino: Olá
(Tempo estimado – dois atos a cada três horas cada).

Personagem masculino: Olá. Como vai?
(Tempo estimado: oito dias, com um ato de quatro horas a cada dia).
 
Pausa.
(Tempo estimado: seis dias com dois atos de uma hora cada dia. Os dois atores devem estar no palco, tocando o ombro esquerdo daquele à sua frente. No último ato (no final do sexto dia), os dois atores erguem, simultanêamente o braço e acariciam a face um do outro).
 
 
 
 
Personagem masculino, espantado. Quem é você, afinal?
(Tempo estimado (muito rápido): um ato de quatro horas).

Bruna F. [userpic]

Bonecas russas,lição de teatro

September 18th, 2008 (01:07 pm)
cold

Humor:: cold



Nuno Ramos

Quem põe uma boneca russa dentro da outra é o dia. E quem põe um dia dentro de outro sou eu. Assim, eu e meus dias, como colecionadores, vamos escondendo bonecos iguais a nós mesmos, uns dentro dos outros. Mas não apenas a nós, pois a natureza é uma enorme boneca russa também. E o rio, que não banharia duas vezes o mesmo homem, é uma boneca russa enrolada em si mesmo em turbilhões, repetindo-se enquanto procura o mar. O mar com suas marés conhecidas, inchando-se e encolhendo-se, ameaçando a todos com os desastres ecológicos mais previsíveis, o mar é uma boneca russa salgada com outros mares sempre iguais e profundos e salgados dentro dela. Mesmo a dor da mordida de uma vespa, a inveja mais profunda, o ciúme infernal, a morte do que amamos de fato - repetição, dor dentro da dor, nervo dentro do nervo, coração interno ao coração. Com olhos dentro dos olhos observo teu corpo pela manhã; com dedos dentro dos dedos que toquei você ontem à noite. Minha saliva bebeu a tua, não a nova, e em minha raiva foi o meu veneno velho, copiado, diluído, que se lançou contra todos. Não sou a réplica do que fui, nem do que serei, mas do que acontece comigo neste exato momento. Como uma luz espelhada, já cansada do que iluminou, retorno, pasmo de retornar. Estou aqui. Aqui é. Salve – de novo. Nada cresce nestas árvores. Nada brilha nessa estrela, na pupila dentro da pupila. Com uma equipe de sósias espalhada pelas ruas reais e diversas, ofereço prêmios a quem descobrir o modelo original.

Feitos a semelhança dentro de um protótipo, á própria semelhança estamos presos, como bois à mó (à mó de dentro da mó, boneca russa de pedra). Nada em nós ventila, só o vento de dentro do vento nos alcança, sem notícia, nem claridade nem viajem nem sal marinho. Concatenado à relojoaria noturna, circular, das bonecas russas das galáxias, girando dentro de si mesmas em velocidades espantosas, olho enfatuado por um olho que não é meu, já tomado pelo que viu e vê ainda. Um olho que tem a luz colada, em dobras de repetição e de contagem. Cada vez que pisco, encontro já o que havia antes. Como é possível isto?
 
Então, como um mendigo pré-socrático, urbano e peripatético, estendo minha simpatia aos cães severos, que me cheiram e depois passam. Também eles são bonecas russas, cães dentro de cães, mas não parecem se importar com isso. Preocupam-se com a sua fome com os intestinos dos intestinos, e farejam a boa nova (carne! mijo! cadela! lua!) nessa espécie de olfato topológico que somente os cães urbanos possuem . Então me perguntam que tens, múmia de outra múmia, vida de outra vida, rosa de outra rosa?E respondo: nada, e canto como quem se banha e a passagem, como uma goteira irritante, dos minutos pela garganta estreita da minha aflição fica aos poucos para trás. A quem culpar? O corpo flamejante de um flamingo, coberto pelas penas de formatos os mais estranhos e das cores mais incríveis não compõem aos poucos o desenho de um vaso de laringe fina? E este vaso não tem no pescoço do animal o seu gargalo e no ventre o seu farnel? O desenho de cada animal não se resume enfim á este gargalo estreito que seleciona e a este ventre bojudo que acumula? A máquina da natureza, ao deixar-se pensar por nós, deixou-se também mapear através de unidades simples, arquetípicas (gargalo e bojo, por exemplo), que se repetem sem cansar, como tiragens levemente modificadas de uma mesma
de uma mesma gravura. Ainda como numa gravura, um enorme processo de transferência literal de uma superfície para outra está na base de tudo o que funciona ali – o pé na areia, a marca do lençol na pele de um corpo depois de horas de sono, os sulcos de um pente no cabelo, a fossilização de uma superfície mole pelo mineral. Esta é a boneca russa principal, no centro de todas as outras: o fato de uma superfície aceitar a outra, deixando-se imprimir por ela. Todas as superfícies, num tempo de espaço mais largo, acabam confundindo-se, embrulhando-se, decompondo-se, gerando-se umas às outras. Este nasce-morre tem sua primeira etapa na impressão de um corpo nos corpos vizinhos (é nessa primeira etapa que a linguagem se detém, gravando a tinta no papel, o signo na pedra, sem acompanhar a seqüência do processo - a fusão da matéria inteira, não apenas de suas camadas superficiais). Em seguida, após sentirem as superfícies como homogêneas a ponto de imprimirem-se umas às outras, os materiais se fundem de vez, em camadas mais profundas e repulsivas (e aqui já não há signo que acompanhe), apodrecendo num musgo verde, nascendo depois em arrebóis improváveis. Mas, por vir sempre de uma mesma digestão, de um mesmo cair pra dentro num liquidificador, o grande alvoroço da matéria não nos surpreende mais. Por exemplo, hoje chove. Amanhã não. Está nublado, fará frio. Ou não. Quantas foram as causas desses fenômenos? Inúmeras num quadro indescritível de forças minúsculas e gigantescas, compondo os resultados - mas nos acostumamos de tal forma com ele que não perguntamos nasa. Saímos da cama, ou viramos de lado e dormimos de novo.
 
A transformação da natureza em técnica ou mecanismo, espécie de grito de glória da idade industrial, apenas coloca a boneca russa dentro de um ciclo que nós mesmos criamos, que conhecemos e dominamos, portanto. Este ciclo mecânico é ainda mais intenso que o da natureza e o arco do seu regresso mais realçado e aparente. Na verdade, somente nossa gratuidade e espanto conseguem quebrar este ciclo – como uma espécie de pele impenetrável, uma parte de nossa atividade vital não consegue aderir a ela, gravando-se numa matéria diversa, que morre conosco. No entanto, sabemos de sua potência-nuvem, de sua potência-ó, de seu destino voz. Este desperdício é que nos faz merecer nosso nome; este prejuízo é que nos faz únicos. Algumas almas quietas parecem compreender isto mais cedo. São os inexpressivos, que ficam rindo sem graça para nós, querendo voltar logo a parede branca à frente da qual, com feições impassíveis, passaram com certeza grande parte de suas vidas.
 
 
(Continua).
 

Bruna F. [userpic]

Insacia

August 30th, 2008 (11:41 pm)

Os lampejos dessa noite
recaíram sobre mim. 
Inundaram-me,
exalaram chuva,
mas a garganta
ficou seca.


 

Bruna F. [userpic]

nau frágil

August 16th, 2008 (11:13 am)
cheerful

Humor:: cheerful

oco
flutuava a imensidão
sem sentir o corpo
sem sentir o peso

como um corte 
a ausência
a medida
estilhaça

denso
sem lugar terno
sob a luz
desloca- se 
mar adentro
cinco tons abaixo

a profundidade 
intacta 
do negro azul
não desponta 
quando
o sol 
irrompe
a superfície esverdeada


(à Hilda Hilst)

Bruna F. [userpic]

Saudade

July 25th, 2008 (04:57 pm)
content

Humor:: content

No fim de uma tarde de Julho,reconheceu ter-se perdido entre as voluptuosas ondas -mar a dentro do peito- e num instante calaram-se os pensamentos. Um rubor conhecidamente incômodo dilatou-se sobre a pele do rosto e sentiu que as mãos pesavam. Confundiu-se em reconhecer os nomes e as fotos num deslocamento de memória ou de retina - oportuno - e retirou-se da sala para mergulhar num certo prazer melancólico que não poderia dizer até quando duraria. Saudade, noite longa e algumas taças de vinho.
   

Bruna F. [userpic]

Exercício Perceptivo -número 1

July 24th, 2008 (04:51 pm)
cheerful

Humor:: cheerful

I-
malemolente 
escalando
o céu 
azul 
do lençol

quem não arisca
não se diverte

II-

pendurada 
pelos braços
no varal
o pregador
belisca 



III-
amor
ator
doa

IV-
reparei que todas as cores terminavam no amarelo fundo da minha gaveta
pode ser coisa do tempo ou da retina.

Bruna F. [userpic]

Pastiche de um romance decadente.

July 6th, 2008 (04:28 pm)
chipper

Humor:: chipper
Ao som de:: Parton vite - kaolin

Se por fim
fizeste saudável o hábito de enternecer-se
à vestígio de qualquer sentimento -
inerte ou fluente
casto ou passional
ocioso ou admirável
que dizer de repreensível?

Para amantes encouraçados
amores são sempre possíveis
há de se conceber o belo
sob olhares expressivos
e mãos vacilantes
sem, contudo,
deixar-se levar por tons nostálgicos
ou pela excitação das matizes de fim de tarde

Não se trata de mero romantismo,
incurável
é coisa de quem busca constantemente
o amável - pleno;
Um dueto amoroso com tenor de doce falsete

Bruna F. [userpic]

mini romance urbano

June 6th, 2008 (10:38 am)
angry

Humor:: angry

Vestiu a camisa ao contrário
para desfazer o ar estampado
me deu um sorriso cínico
uma olhadinha de banda
e foi embora

eu cantei
''oh, I 'm falling''
e depois esqueci  



 

Bruna F. [userpic]

à mesa do café

May 10th, 2008 (09:12 pm)
calm

Humor:: calm
Ao som de:: A outra- los Hermanos


Se sente torpe
apático
ciente
bebe da seiva amarga 
a cevada
conserva
reserva  
e encontra na noite cinzenta
o embalo 



Fim de Noite:

      Trans Loucado
   Trés Loucado
 Des Loucado





desafio poético à mesa de um café, numa sexta feira dessas, 

Bruna F. [userpic]

the Tinker

May 4th, 2008 (04:25 pm)

 

turned on the tv 
opened a budweiser
took off his shoes
and in five minutes 
gave up
of  being lonely
and
cryed like a man
wondering
if his
Jesus Christ
would smile like Monalisa
watching everything
from above

 

Bruna F. [userpic]

Corcovado

April 19th, 2008 (07:45 pm)

 Quiet nights of quiet stars
 e minha estrela também aquieta depois
 de todas as noites.



   

Bruna F. [userpic]

Politicando

April 12th, 2008 (11:51 am)
cheerful

Humor:: cheerful
Ao som de:: Hot dog - Led Zeppelin

 
Politicagem com
noventa por cento
em grau de pureza
(contrabando de algum canto da américa latina e sem escala)
mas no distrito federal
não se fala espanhol,
aí virou sacanagem. 





 

Bruna F. [userpic]

rola,poesia,rola

March 31st, 2008 (03:59 pm)
ali:: Mais um real no Jukeboxx,

XXIV-  Sonoridade

Se desfeitas as sutilezas implícitas nos sons dos ésses
o que sobra de verso nessa poesia?



XXV- Bossa de Amsterdã  

olha que coisa mais linda mais cheia de graça
seu cabelo desgrenhado
bem no meio da praça. 


XXVI - mais modernidade

ops!
cai
    u!





Bruna F. [userpic]

poesia desceu ladeira,

March 30th, 2008 (11:03 am)
full

Humor:: full
Ao som de:: Moby Dick- Led Zeppelin

 XXI - amor  

Um pedaço de sol
amargo no céu da boca


XXII - cidadezinha

janelas centenárias fofocam o fim de semana 



XXIII - Realidade


Diz o peixe e o menino:
- o mundo é distorcido
  e assustador, 
  visto do lado de dentro.

Bruna F. [userpic]

Le dernier samedi de juin

March 18th, 2008 (06:21 pm)
chipper

ali:: Esta Belo Horizonte
Humor:: chipper
Ao som de:: Death cab for cutie- Lightness

saudade amor
das horas brancas
suas
ávidas de afeto
e as vestes brancas
tatéis 
pulsáteis
minhas 

et le dernier samedi de juin.



 

Bruna F. [userpic]

memória infantil

March 16th, 2008 (06:05 pm)
calm

Humor:: calm
Ao som de:: Sand in my shoes- Dido

o primeiro periquito que morreu
meu pai enterrou no quintal
achei um pecado, não dar o sacramento
a periquito que morreu de parto.

Não sei o que foi feito dos ovos, 
não quis mais saber de periquito

Bruna F. [userpic]

despudor,

March 10th, 2008 (08:01 pm)
relaxed

Humor:: relaxed
Ao som de:: The Zombies – Girl Help Me

XX-
nuance -


um pedaço
vermelho
do seu pescoço
no meu batom
e

o tinto cheiro do quarto
(in)certo.

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