Azul
Há que se dar termo a cor do dia
embora considere amor
sua matiz quotidiana:
leve mas
fundo
(indecifrável leveza:
um passo em falso
e despenco
- sem peso)
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Há que se dar termo a cor do dia
embora considere amor
sua matiz quotidiana:
leve mas
fundo
(indecifrável leveza:
um passo em falso
e despenco
- sem peso)
V
Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.
VI
No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.
VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.
Ana teorizava sobre o amor enquanto procurava pelo seu, sem encontrar e todavida. Certo dia, pensando que, talvez, pudesse ser o simpático rapaz do moinho a trazer-lhe flores a janela, arranjou-se em seu melhor vestido e foi pass(e)ar por ele até que ele a notasse. Na primeira ela se distraiu, na segunda se envergonhou, na terceira desconversou e só então, ele convidou a entrar e tomar chá. "Vestido é tiro e queda" pensou, e do convite, achou cortês. Sentaram e falaram. Falaram sobre o campo, sobre o tempo, sobre o moinho, sobre eles mesmos e sobre os outros. Cansaram e calaram. Despediram-se sem reservas. Ela foi para casa e ele foi para dentro. Uma quarta-feira mais tarde recebeu num bilhete outro convite: Desta vez, nada de chá, girassóis! Ana desempoleirou-se e do armário tirou outro vestido, mais adequado as tardes de quarta-feira. Despediu-se da mãe com a desculpa de quem não tem e pôs-se a caminho. ( A outra Ana gostou da falta de jeito do menino). Encontraram-se na metade__ e ele estava cheirando a banho. No fim da tarde os girassóis ficavam maiores e mais vermelhos e depois, escureciam. Ela aceitou o namoro achando que o amor era mais, mas que o mais era porque crescia. Passou então a frequentar o moinho. Ele, que nunca achou nada do amor, gostava dos vestidos. E amava.
(Somente mais tarde é que ele diria que vestido vermelho só não vê quem não quer, sem medo de maiores retaliações).
Almas tortas sinuosas
Dias permanescem
Dias vacuam
Espelham-se
Espelham-nos
[brancas]
Então enegrecemos e transparecemos
Ora densos
Ora pó
Pressentindo o equívoco inevitável, dispôs-se a reparar o erro. O caminho lento e rítmico doía-lhe as costas, ou talvez fosse a distância. Pensou em escrever, como nos melhores romances, mas a ansiedade incomodava-lhe a torto e direito. Não tinha muita paciência embora assim a julgassem (graças aos seus traços sutis e porte elegante-curvilíneo). Era novembro, o vento soprava dispersando as nuvens - frio. O sol empalidecia em matizes amarelas e alaranjadas. Os contornos eram belos. Não sem entusiasmo pensara no encontro sob aquela luz, pensara no que diria e nas possíveis reações. Não sem agonia pensara em adiá-la ao máximo, e assim saborear cada segundo, sem maiores conseqüências. Não sem medo, pensara no não. Não sem recortes, pensara na volta, caso a fizesse sozinha. Uma mulher se contorcia dentro dela e do lado de fora, apenas suspirava. Não lhe negaria amor plenamente e não lhe negaria catarses. Manejaria, entre risos e dores, uma liberdade dupla e estariam enlaçados por este único vínculo afetivo e mutável, ao qual cuidariam como a uma semente e esta lhe agradeceria dando os frutos que lhe coubesse e nada mais. E fossem grandes fortes suculentos saudáveis duradouros ou fossem minguados secos ocos fracos e frágeis ao primeiro inverno, iria amá-los como ao homem, como a si e como a todo amor que conhecia. Entrou no primeiro trem para contar isso a ele. Para pedir que esperasse por ela, que entendesse, que compartilhasse e soubesse aproveitar tudo isso que lhe pertencia- e a ele apenas - sem destruir a parte que era dela- e dela somente.
( Existem coisas no amor que só cabem guardar ao coração de uma mulher. Por fora, somos apenas pele. )
Eu e a minha inércia. Nem mesmo quando as condições exigiam de mim uma mudança de postura, eu me preocupei em acordar quinze minutos mais cedo, ou me ocupar de coisas além-internet no fim-de-semana. E tanto se amontoou no meu dia, que quando me dei conta, não sobrava tempo para escrever, pensar ou ler quaisquer coisas - logo eu que me considero tão dedicada ao meus prazeres cotidianos. No entanto, eis as férias, para renovar em mim a esperança de ser uma pessoa melhor ou pelo menos mais organizada: Me dedicarei ao jornal. Lerei os livros que comprei e ainda não li. Verei os filmes que ainda não vi. Comprarei uma câmera nova em folha, praticarei. E manterei meus verbos no futuro do presente - para lembrar- me deste compromisso, como uma fita no dedo.
*Pensei também num novo blog, mas optei por criar um diário de bordo. Envio notícias dele por aqui, tentando versos que sejam meus- como nos velhos tempos. Me desejem sorte.
Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.
Texto extraído do livro "Menina a caminho", Raduan Nassar, Companhia das Letras - São Paulo, 1997. pág.71.
Nuno Ramos
Os lampejos dessa noite
recaíram sobre mim.
Inundaram-me,
exalaram chuva,
mas a garganta
ficou seca.
oco
flutuava a imensidão
sem sentir o corpo
sem sentir o peso
como um corte
a ausência
a medida
estilhaça
denso
sem lugar terno
sob a luz
desloca- se
mar adentro
cinco tons abaixo
a profundidade
intacta
do negro azul
não desponta
quando
o sol
irrompe
a superfície esverdeada
(à Hilda Hilst)
No fim de uma tarde de Julho,reconheceu ter-se perdido entre as voluptuosas ondas -mar a dentro do peito- e num instante calaram-se os pensamentos. Um rubor conhecidamente incômodo dilatou-se sobre a pele do rosto e sentiu que as mãos pesavam. Confundiu-se em reconhecer os nomes e as fotos num deslocamento de memória ou de retina - oportuno - e retirou-se da sala para mergulhar num certo prazer melancólico que não poderia dizer até quando duraria. Saudade, noite longa e algumas taças de vinho.
I-
malemolente
escalando
o céu
azul
do lençol
quem não arisca
não se diverte
II-
pendurada
pelos braços
no varal
o pregador
belisca
III-
amor
ator
doa
IV-
reparei que todas as cores terminavam no amarelo fundo da minha gaveta
pode ser coisa do tempo ou da retina.
Se por fim
fizeste saudável o hábito de enternecer-se
à vestígio de qualquer sentimento -
inerte ou fluente
casto ou passional
ocioso ou admirável
que dizer de repreensível?
Para amantes encouraçados
amores são sempre possíveis
há de se conceber o belo
sob olhares expressivos
e mãos vacilantes
sem, contudo,
deixar-se levar por tons nostálgicos
ou pela excitação das matizes de fim de tarde
Não se trata de mero romantismo,
incurável
é coisa de quem busca constantemente
o amável - pleno;
Um dueto amoroso com tenor de doce falsete
Vestiu a camisa ao contrário
para desfazer o ar estampado
me deu um sorriso cínico
uma olhadinha de banda
e foi embora
eu cantei
''oh, I 'm falling''
e depois esqueci
Se sente torpe
apático
ciente
bebe da seiva amarga
a cevada
conserva
reserva
e encontra na noite cinzenta
o embalo
Fim de Noite:
Trans Loucado
Trés Loucado
Des Loucado
desafio poético à mesa de um café, numa sexta feira dessas,
turned on the tv
opened a budweiser
took off his shoes
and in five minutes
gave up
of being lonely
and
cryed like a man
wondering
if his Jesus Christ
would smile like Monalisa
watching everything
from above
Quiet nights of quiet stars
e minha estrela também aquieta depois
de todas as noites.
Politicagem com
noventa por cento
em grau de pureza
(contrabando de algum canto da américa latina e sem escala)
mas no distrito federal
não se fala espanhol,
aí virou sacanagem.
XXIV- Sonoridade
Se desfeitas as sutilezas implícitas nos sons dos ésses
o que sobra de verso nessa poesia?
XXV- Bossa de Amsterdã
olha que coisa mais linda mais cheia de graça
seu cabelo desgrenhado
bem no meio da praça.
XXVI - mais modernidade
ops!
cai
u!
XXI - amor
Um pedaço de sol
amargo no céu da boca
XXII - cidadezinha
janelas centenárias fofocam o fim de semana
XXIII - Realidade
Diz o peixe e o menino:
- o mundo é distorcido
e assustador,
visto do lado de dentro.
saudade amor
das horas brancas
suas
ávidas de afeto
e as vestes brancas
tatéis
pulsáteis
minhas
et le dernier samedi de juin.
o primeiro periquito que morreu
meu pai enterrou no quintal
achei um pecado, não dar o sacramento
a periquito que morreu de parto.
Não sei o que foi feito dos ovos,
não quis mais saber de periquito
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